
ASSOCIAÇÕES DE AMIGOS E O PODER PÚBLICO
Roberto Paulo Cezar de Andrade



O conceito da separação absoluta das funções do Estado das da Sociedade
Civil, vem sendo superado nos últimos anos, em decorrência, não só da
inadequação dos recursos públicos para atender a todas as necessidades do
País, mas, também, do número crescente de cidadãos que se sentem
co-responsáveis pelo bem estar da comunidade.
O Seminário sobre Cidadania Participativa, realizado no Rio de Janeiro em
1993, foi pioneiro em provocar um amplo debate em torno das funções e do
papel do chamado "Terceiro Setor". Antes dele, já haviam sido criadas
muitas "Sociedades de Amigos", com o objetivo de reunir pessoas e entidades
interessadas em dar apoio a instituições públicas de caráter educativo,
cultural, social e outros. A nossa Associação de Amigos do Museu Histórico
foi uma delas.
As sociedades como a nossa - de Amigos do Museu - se enquadram entre
aquelas em que cidadãos e instituições se juntam para prestar determinados
serviços que julgam importantes para as comunidades em que vivem, sem que
tenham qualquer intuito de com eles lucrarem monetariamente. É a faixa do
chamado Terceiro Setor. Hoje, no mundo ocidental inteiro, multiplicam-se as
sociedades, filantrópicas, confessionais, cívicas, esportivas, culturais e
outras, cujo único objetivo é o de financiar, dirigir ou apenas apoiar
iniciativas com as quais têm uma afinidade que justificou a sua fundação e
continuidade.
Entre elas e o Estado, em todas as suas formas e graus, surge muitas vezes
uma relação tensa e de mútua desconfiança. A tradição patrimonialista, na
qual cabia ao Estado e ao Rei zelar pelo bem público, enquanto o cidadão
tratava de sua própria vida e de seus interesses diretos, ainda está
arraigada no subconsciente nacional. Tanto o trabalho gratuito dos
indivíduos, quanto a ausência de fins lucrativos por parte de organizações,
são vistos com certa suspicácia. Acresce a isto a existência de abusos e
fraudes, tratados sempre com grande alarde pela mídia e os políticos. Daí
muitas das dificuldades de relacionamento entre Estado e Terceiro Setor.
A verdade, felizmente, é bem diferente da versão. Por todo o Brasil existem
milhares de pessoas e organizações que trabalham sem visar lucro,
objetivando apenas o bem de seu semelhante ou o benefício de uma obra ou o
apoio a uma idéia ou ainda a uma instituição que julgam merecedora. Tanto
quanto os servidores públicos - que, afinal, são pagos por nós com os
inúmeros tributos que nos infernizam, mesmo quando sua dedicação e
competência excedem de muito o que a simples remuneração que recebem
justificaria - elas merecem o nosso respeito e admiração.
Qual é então o nosso desafio? No meu entender, em país como o Brasil, em
que a carência de recursos públicos é permanente e em que as demandas por
tais recursos é enorme, há uma necessidade premente de estimular, criar e
fazer funcionar parcerias entre o poder público e a sociedade civil. As
Sociedades e Associações de Amigos dos Museus têm sido exemplo de como
essas parcerias podem funcionar, e funcionar bem.
Mesmo assim, periodicamente, surgem críticas por parte de pessoas e órgãos
ligados ao Ministério da Cultura com relação à forma de interagir entre as
Sociedades e os Museus que elas procuram apoiar. Acredito que tais críticas
possam se originar principalmente de falta de uma relação mais próxima
entre os responsáveis por tais órgãos e os dirigentes das Sociedades.
Por isso, penso que seria oportuno promover, o mais breve possível, uma
reunião de trabalho entre dirigentes de Sociedades de Amigos e os
responsáveis pelos Museus, na área da Cultura. Tal reunião teria como
principal objeto esclarecer as funções das Sociedades de Amigos, examinando
as críticas a elas feitas e as oportunidades existentes para ampliar suas
atividades em benefício do bem público.
Acredito firmemente que o papel das Sociedades de Amigos será cada vez mais
importante para o desenvolvimento de nossos museus. Isto entretanto só será
possível em franca colaboração com o poder público por eles responsável e
através de ampla compreensão do papel que devem representar e da forma pela
qual tal papel possa ser exercido sem por em risco os bens públicos que
procuram apoiar.
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