 

Foto : Rômulo Fialdini - Livro MHN - Banco Safra

Foto: BankBoston

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Nesse espaço que leva o visitante do Pátio da Minerva ao Pátio dos Canhões
, encontram-se importantes peças do acervo de arte sacra do Museu, entre as
quais 33 esculturas religiosas em marfim que integram uma coleção de 572
itens de origem indo-portuguesa, uma das mais importantes do gênero
existentes no mundo, e duas obras importantes de Mestre Valentim
(1750-1813), esculpidas em madeira : "São João Evangelista" e "São Mateus".
Estas duas imagens guarneciam os nichos superiores da fachada da Igreja de
Santa Cruz dos Militares, no centro da cidade do Rio de Janeiro, de onde
foram retiradas , no início do século XX, já com grandes avarias.
Em janeiro de 2001, através da doação feita pelo Bank Boston, o Museu
Histórico Nacional incorporou à sua coleção de arte sacra dez valiosas
pinturas cusquenhas dos séculos XVII, XVIII e XIX, testemunhos da cultura
peruana, que podem ser apreciadas pelo público no Hall dos Arcazes.
Estas pinturas, ao lado do acervo já existente no Museu -contribuem
ignificativamente para uma melhor compreensão da arte sacra na América
Latina. Oriundas do mesmo período das peças apresentadas na Galeria Bank
Boston - Hall dos Arcazes, as pinturas cusquenhas somam-se à arte
religiosa brasileira, oferecendo um olhar que encontra na diferença
artística a semelhança da religiosidade colonizadora.
A ARTE CUZQUENHA
Com a conquista de Cuzco pelos espanhóis, em 1534, inicia-se uma profunda
transformação na história política do Império Inca, como também um novo
capítulo em sua história da arte.
A pintura cusquenha surge como arte eclesiástica e sua finalidade principal
foi didática - sobretudo catequética, uma vez que os espanhóis, com o
crescente processo de apropriação das riquezas da nova colônia, partem para
a conversão das almas pagãs à religião católica.
A imagem era - aliada à palavra - o único meio bastante eficaz de
transmitir o catolicismo. Apostando na evangelização dos povos da
comunidade incaica, a Espanha envia um grupo de religiosos artistas para a
criação de obras doutrinárias, formando escolas de pintores índios ou
mestiços, com o ensino da arte do desenho e do óleo.
O termo "cusquenho", no entanto, não se limita a Cuzco, origem destas
pinturas coloniais hispano-americanas, que foram produzidas igualmente em
outros países andinos, como Bolívia e Equador, entre os séculos XVI a
XVIII. A denominação se generalizou mais por ser a cidade de Cuzco, no
Peru, a capital e o centro do Império Inca. De qualquer forma, a Escola de
Cuzco é considerada como o primeiro centro pictórico organizado no chamado
Novo Mundo.
Os temas cusquenhos - exclusivamente religiosos - são os mesmos do italiano
Fra Angelico - na primeira metade do século XV e dos mestres de Pisa e
Siena na Idade Média: cenas bíblicas da tradição católica - a glorificação
de Jesus, Virgem Maria e Santos, Juízo Final, com as glórias do Paraíso e a
danação do Inferno.
Os cusquenhos ignoram a perspectiva e preferem o vermelho, o amarelo e as
cores terrosas. Dão ênfase à beleza física das figuras agigantando os
santos para reduzir os seus devotos a pontos minúsculos nas telas. Criam a
impressão de volume estatuário dos mantos suntuosos e dão contorno de
monumento a cortinas e colunas.
Mesmo sofrendo influência das escolas bizantina, flamenga e renascentista
italiana, os cusquenhos peruanos mostram uma liberdade desconhecida dos
europeus: cores vivas, imagens distorcidas para dar maior dramaticidade à
cena, sobre fundo ilustrado com fauna e flora dos Andes adornado com anjos
e arcanjos.
Ignora-se a autoria da maioria destes trabalhos, dada a tradição dos povos
pré-colombianos, cuja arte era essencialmente comunitária e ritual. |